Um sequência de acontecimentos, coincidências (destino?), desilusões, vitórias, obrigaram-me a olhar para dentro de mim, e mudar os móveis de lugar... e eis que a casa parece outra. Vou cobrindo os cantos de humidade e os buracos do tempo, passo demãos de tinta viva nas paredes, enquanto esta pinga alegremente pelo chão. Vejo-me de cabelo apertado de modo desajeitado, de roupa coçada salpicada de sorrisos, a sentir a energia do chão através dos pés descalços. Passo as costas da mão pela testa suada e coberta por uma fina camada de pó, sopro para uma mecha de cabelo que teima em cair, suspiro e olho em redor. Tanto que foi já feito, tanto por fazer, tanto que foi já dito, e tanto o que ficou por dizer.
Reencontro-me todos os dias, volto a sentir o fulgor de uma fonte que em tempos jorrava com a intensidade apaixonada de quem queria viver o absoluto de todo e qualquer momento que me era concedido. Terei eu realmente sucumbido ao automatismo e metamorfoseado naquilo que sempre combati?
E nesta viagem pelo interior de uma casa, onde as portadas deixavam espreitar um tímido feixe de luz, com um gotejar a ouvir-se ao longe, e tábuas que rangem como quem anuncia visita, apanhei-me a sentir a curiosa impressão de estar a ser guiada por e para algo. Uma visita guiada à minha própria casa...
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Aquele que combate monstros deve tomar cuidado para que ele mesmo não se torne um.
Nietzsche