segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Guiões e Ensaios

Photography by Bing Wright
(imagem de: Bing Wright)

"Sem problema... Prefiro assim do que ter o impulso egoísta de o querer para mim e saber que não o poderei ter por completo." Foi esta a resposta quando me perguntaram como estava(mos). E em seguida há um "devias", um "podias", ou um "não tens nada a perder". Sorrio para dentro.
Um erro gravíssimo quando uma pessoa se apaixona. Vive-se em condições desumanas, a mendigar um olhar e rogar por atenção, um carinho para uma alma amputada que, sedenta de luz, se deixa encandear como uma raposa perdida numa autoestrada.
De repente, e sem te aperceberes, estás a viver para alguém que, muito provavelmente, está a anos luz de te adivinhar os novelos de suposições. Isto, claro, não excluindo a hipótese de se estar a borrifar para a febre em que te deixou. Desumano!
Algum tempo depois, pode até já ter passado e ainda assim custar conceber que algum dia estivemos tão doentes por alguém ao ponto de perder (literalmente) horas da tua vida a ensaiar discursos à frente do espelho, repensá-los no banho, esperar respostas e prever reações. Dava para um argumento de uma novela, o tom de cada fala, as expressões ébrias e meios sorrisos dizerem mais do que devem. Mas na realidade, as tuas não as consigo ler e por isso dou-me ao luxo de as imaginar para mim. Refugio-me nos meus guiões, para os rever de forma perversa vezes sem conta, para brincar com uma virgula aqui, com um verbo ali, beijar um complemento circunstancial, acariciar um superlativo ou para me encostar a um advérbio de modo, quando para mim ainda és artigo indefinido. Obrigo-me a perder as vezes que recomeço para ver se enjoo. Para enjoar de vez, para recuperar novamente os dez anos mentais que perdi contigo, sem ti, durante um ano.
Já vos aconteceu estarem a ouvir alguém e de repente deixarem de o fazer, para passar simplesmente a observar a forma como fala? Deixar a imagem continuar, desligar o som, colocar uma música de fundo, aquela lá bem do fundo que só tu consegues ouvir, e começar a poetizar sobre a forma como ele articula as mãos enquanto fala, os esgares quando acentua algo com ironia, tudo isto enquanto cronometramos o tempo que permanece fixo no nosso olhar. Às vezes quase parece que fomos descobertos, mas então não. Parece que continua. Leva o copo à boca e bebe um trago de vinho e nós soltamos um "hum hum" automático, para não nos perdermos no poema. E ele continua a falar. Parece descontraído, o álcool ajudou mas não há nenhum sinal que o tenha traído a meu favor. Nem um... Vou abanando a cabeça como quem está realmente interessada na conversa, consciente de que fiquei há três tópicos para atrás. Se ele soubesse só de metade do que vai aqui por dentro, certamente que fugiria, é demasiado grande para os dois. Ficaria mãe solteira, com o coração nos braços. Um coração órfão.
De repente assalta-me a ideia de que, pela minha apatia e monossilabismo, pode julgar que estou pouco ou nada interessada na conversa. Guardo o poema para continuar mais tarde e esforço-me para acompanhar as passadas do diálogo. Se tu soubesses...