quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Para o meu bebé

Coloquei a minha foto de recém-nascida oferecida pelo meu tio junto ao computador e comecei pesquisar informações sobre vistos, câmbios, e passagens.
Os olhos do bebé entreabertos na imagem a captar as primeiras sombras do mundo, com uma inocência estremunhada e abafada em cobertores e lençóis da caminha de hospital, prendem a minha atenção. Com tantas promessas, desejos e oportunidades de uma vida longa que o espera. O bebé que anuncia uma nova vida de expectativas e limites infinitos, a sucessão de uma família de linhagem longa, de grandes exemplos de carácter, rectidão e nobreza. Um livro por escrever, as páginas imaculadas a gritar por tinta, muita tinta!
Senti lágrimas a correrem pelo rosto primeiro e então o choro convulsivo chegou enquanto pedia desculpa ao bebé por sentir que, passados quase 30 anos, não fui capaz de me tornar na mulher que ele merecia ser.

Desculpa!

Mil vezes desculpa!!

Falhei-te! Eu amo-te e falhei-te!


Quase 30 anos depois, vejo-me enrolada no edredão da cama a continuar ver passar as sombras do mundo... como um livro de páginas rasuradas.