quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Pé de chumbo
Vou começar a desistir de mudar o mundo, as coisas são como são. Talvez me devesse adaptar e dançar a música que a banda toca. Mas sou um pé de chumbo, difícil de acertar num ritmo que não é o meu.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
A minha promessa para o mundo
Falhar é meio caminho andado para conseguir. Uma ilusão vale todas as desilusões do mundo. Ousar cair é o único caminho para te levantares. Falha já, ilude-te imediatamente, cai sem hesitar. Se tens medo, faz. Se tens vontade, corre. Se tens saudade, ama. Se tens desejo, parte. Parte sem olhar a quem, parte para não te seres ninguém. Manda o chefe à merda, a rotina pentear macacos, o mais-ou-menos ao bilhar grande. Quando fizeres, faz em grande.
in "O Livro dos Loucos", de Pedro Chagas Freitas
sábado, 8 de fevereiro de 2014
Lisboa de Flanela
Os meus colegas correm para a saída da editora mal o relógio aponta para as 18h00, uma debandada pelo desfiladeiro que é o corredor, só para não estar nem mais um minuto no local de trabalho que, muito cinicamente, dizem gostar e para chegarem 5 minutos mais cedo a casa. Deixo-me ficar sentada a olhá-los por cima do monitor, com os phones aconchegados aos ouvidos enquanto os vejo a atropelarem-se todos os dias. Passados 10 minutos instala-se o silêncio, rompido apenas pela ousadia dos coolers do servidor, e aquilo que é possível ouvir de um sétimo andar. Tiro os phones, e encosto-me à cadeira e olho fixamente para as luzes do tecto enquanto ouço o reboliço da hora de ponta do Campo Grande. Os sons de Lisboa!
Sons que amava quando era nova! Criança criada em Trás-os-Montes, vinha passar férias a casa de sua avó, com quem estava realmente muito pouco por zaragatas de gente crescida, na grande e agitada capital. Tanta luz, tanta cor e o zum zum citadino que nunca esmorecia. Como gostava de ir para Lisboa!
Lembro-me que me deitavam cedo na cama da avó, sempre contrariada, e ficava lânguidas horas a ouvir o pára-arranca dos carros nos semáforos, e as buzinas ecoantes em voz de indignação, gargalhadas alegres que passavam, ambulâncias na sua azáfama, numa corrida de obstáculos contra o tempo, com as sirenes a rebaterem nos prédios. As janelas tremiam com os voos rasantes dos aviões, e quanto adorava senti-los, os aviões. Em casa dos pais não havia, só uns rabiscos brancos que deixavam à sua passagem longínqua, nada mais.
Aninhava-me no meu pijama de flanela e chegava a roupa da cama até cima enquanto escutava os pais e a avó a conversarem na saleta. Era bom ouvi-los. Senti-los ali perto a um passo de um beijo, de uma festa no cabelo, ou de um colo para ajudar a descer da cama alta da avó para fazer xixi durante a noite. Pequenina, julgava que tudo era para sempre. Há mais de uma década que a avó dorme sozinha, restando-me a sensação de ser criança quando escuto os barulhos dessincronizados das avenidas lisboetas. São os mesmos, mas desta vez ouço-os numa cadeira de escritório, num trabalho que maldigo todos os dias, numa rotina que me emperra o raciocínio, onde aguardo por alguém que me volte a aconchegar com o mesmo amor. Coisas de adultos. Grande coisa…
Olho para as horas e calculo o tempo de apanhar os dois autocarros até Carnide. Levanto-me num ápice, desligo as luzes, chamo o elevador e desço até à confusão, tentando mostrar que uma menina de pijama de flanela e pés descalços é capaz de passar por adulta, só para provar(-se) de que é capaz de fazer grande coisa.
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A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança.
Nietzsche
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Chama
Não acredito haver sensação mais prazenteira que fazer amor com as minhas palavras e as ideias de quem antevê a cor da minha alma. Haverá formigueiro mais excitante que me sentir num quarto escuro, tropeçar em alguém e automaticamente pedir "Desculpa", para só depois me aperceber que até essa hora estava sozinha? Matéria para além do vácuo, ideias palpáveis com cheiro para além do meu. As minhas mãos frias tremem empolgadas enquanto procuram fantasiar as feições de quem tenho pela frente. Mas sim, claro que sim, para que interessa ver-te quando te sinto a pulsar no breu. Que bom que é, já faz muito tempo. Rejubilo por dentro. Também me sentes, não é? Os meus olhos varrem o preto em busca de contacto visual mas nada consigo discorrer a não ser nada.
A escuridão pergunta o que sou. Longe de estar habituada a interpelações, depressa conclui que uma simples resposta não bastaria, o que me levou à questão que já me inquietava no começo, muito antes disso, antes de muita coisa. O que sou e como me apresento? Estendo a mão, dou um abraço, dois beijos, um? Ele faz um esgar que sinto ser um sorriso divertido, e especo-me a pensar baixo no melhor nome para me chamar, para me chamar por mim.
Não te vejo, mas deixa-te ficar. Vou descer à terra, queres que te traga alguma coisa?
Desci.
Não sei se tremo de frio ou de entusiasmo, tenho ideia de que vou levar três noites para adormecer, a estripar cigarros na esperança de me poderem ajudar a acertar os ponteiros do lado esquerdo do cérebro (ou será do direito?). Mas eu conheço este nervosismo envergonhado, houve uma vez, a primeira vez, e talvez a segunda. A insegurança eufórica de quem se despe lentamente, não para atribuir sensualidade ao gesto mas para ganhar algum tempo, para acalmar o miocárdio frenético pregado no meu ouvido. A fatalidade de saber que se chega a um momento em que não existe um voltar atrás, não há rewind, não há segundas hipóteses. Sabia que poucos seriam os episódios na vida que pudessem igualar essa sensação. Oh sim, e este é um deles.
“Tens medo de quê, rapariga?”
Da solidão, do esquecimento… e de falhar. E quanto. Apavora-me tanto o medo de falhar que me castra a ideia de me lembrar de criar. Maldito coração perro, fala cobarde! Não te atrevas a aninhar nesse canto só porque é quente, quando sabes que já só chove cá fora. Descansa, olha, está ali a Razão, vês? Amordaçada no canto da sala, numa luta muda contra as cordas que a sujeitam, mas em vão. Não vai ficar bonito para o nosso lado quando lhe tirarmos a mordaça, pois não? Suspiro... Vamos.
Perdi o traquejo, voltei a ser menina. Se não me sentisse a corar num leve tom incandescente, talvez conseguisse que o nível de atrapalhação batesse no zero. Acabo de me despir e, enquanto combato a vontade de me esconder nas minhas mãos, deito-me contigo e sentindo o contacto com a tua pele depressa troco a ânsia por insaciedade.
- Vai doer?
- Vamos até onde quiseres…
E mal sabia eu do quão longe se poderia chegar…
Foi nesse momento que percebi que o maior problema não era iniciar-me em algo que desconhecia, mas parar depois de lhe ter tomado o gosto.
Subi.
Penetro mais uma vez na escuridão e guiou-me tacteando as paredes que nunca existiram até te alcançar e, com o sorriso mais confiante que me fui capaz, respondi:
- Sou um canteiro florido que teve a sorte de ficar na parte mais soalheira do terraço, e que sonha todos os dias em ser um jardim de inverno.
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É preciso ter asas quando se ama o abismo
Nietzsche
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