sábado, 8 de fevereiro de 2014

Lisboa de Flanela


Os meus colegas correm para a saída da editora mal o relógio aponta para as 18h00, uma debandada pelo desfiladeiro que é o corredor, só para não estar nem mais um minuto no local de trabalho que, muito cinicamente, dizem gostar e para chegarem 5 minutos mais cedo a casa. Deixo-me ficar sentada a olhá-los por cima do monitor, com os phones aconchegados aos ouvidos enquanto os vejo a atropelarem-se todos os dias. Passados 10 minutos instala-se o silêncio, rompido apenas pela ousadia dos coolers do servidor, e aquilo que é possível ouvir de um sétimo andar. Tiro os phones, e encosto-me à cadeira e olho fixamente para as luzes do tecto enquanto ouço o reboliço da hora de ponta do Campo Grande. Os sons de Lisboa!
Sons que amava quando era nova! Criança criada em Trás-os-Montes, vinha passar férias a casa de sua avó, com quem estava realmente muito pouco por zaragatas de gente crescida, na grande e agitada capital. Tanta luz, tanta cor e o zum zum citadino que nunca esmorecia. Como gostava de ir para Lisboa!
Lembro-me que me deitavam cedo na cama da avó, sempre contrariada, e ficava lânguidas horas a ouvir o pára-arranca dos carros nos semáforos, e as buzinas ecoantes em voz de indignação, gargalhadas alegres que passavam, ambulâncias na sua azáfama, numa corrida de obstáculos contra o tempo, com as sirenes a rebaterem nos prédios. As janelas tremiam com os voos rasantes dos aviões, e quanto adorava senti-los, os aviões. Em casa dos pais não havia, só uns rabiscos brancos que deixavam à sua passagem longínqua, nada mais.
Aninhava-me no meu pijama de flanela e chegava a roupa da cama até cima enquanto escutava os pais e a avó a conversarem na saleta. Era bom ouvi-los. Senti-los ali perto a um passo de um beijo, de uma festa no cabelo, ou de um colo para ajudar a descer da cama alta da avó para fazer xixi durante a noite. Pequenina, julgava que tudo era para sempre. Há mais de uma década que a avó dorme sozinha, restando-me a sensação de ser criança quando escuto os barulhos dessincronizados das avenidas lisboetas. São os mesmos, mas desta vez ouço-os numa cadeira de escritório, num trabalho que maldigo todos os dias, numa rotina que me emperra o raciocínio, onde aguardo por alguém que me volte a aconchegar com o mesmo amor. Coisas de adultos. Grande coisa…
Olho para as horas e calculo o tempo de apanhar os dois autocarros até Carnide. Levanto-me num ápice, desligo as luzes, chamo o elevador e desço até à confusão, tentando mostrar que uma menina de pijama de flanela e pés descalços é capaz de passar por adulta, só para provar(-se) de que é capaz de fazer grande coisa.

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A maturidade do homem consiste em haver reencontrado a seriedade que tinha no jogo quando era criança.
Nietzsche

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